

(...) E estávamos todos num quarto, no escuro, no meio da madrugada, fazendo nada por opção. E existiam outros aspectos loucos, como uma guerra de algo e os tempos eram difíceis, cheios de medo; e a juventude (na época em que éramos jovens) nada podia fazer contra os males então impostos, além de manter-se junta, unida, cultivando a famosa esperança, que é, de fato, a última que morre.
E o meu coração ainda estava remendando. Cuidando de si, mas aos poucos baixando a guarda. Sendo completamente honesta, a guarda já estava baixada. E tudo corria bem até o momento em que a explosão aconteceu. Com todo o medo e susto do lado de fora, a explosão interna assustou mais do que o esperado.
Me lembrou um filme que naquela época eu ainda não tinha visto: “Lost and delirious”.
O coração, atordoado e confuso, não conseguia pôr ordem nos acontecimentos. Não conseguia entender o motivo de tais ações.
E você... você olhava pra mim com despreso e sofrimento, também. Com raiva e impaciência. Como se todas aquelas coisas tivessem voltando, tivessem voltado.
E eu... eu não entendia. N’outras épocas eu teria entendido. Teria fingido não entender, mas bem lá no fundo teria entendido. “Every time you go too far... you know it.”
Mas dessa vez... dessa vez eu não entendia. Não conseguia nem imaginar o motivo, algo que tivesse servido de estopim. Nada.
Meu mundo – ainda se reconstruindo – aos poucos começou a desmoronar. A dor voltou – mais forte que nunca – e a única coisa que fazia sentido era sair dali. Sumir dali. Mas a guerra lá fora impedia qualquer ação desse tipo e tudo o que eu fiz foi te confrontar e tentar entender... e quando as coisas não mudaram fiz a única coisa possível... (...)